Seis pesquisadores da GumLife usam resina do cajueiro coletada por agricultores de Apodi, no RN, e projetam disputar os US$ 82,6 mi que o Brasil importa anualmente em gomas naturais

Paulo Goethe / FONTE: ME

De Recife
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A NatuCashew® em pó: resultado do processo de purificação da resina do cajueiro desenvolvido pela GumLife. Com aprovação da Anvisa em 25 de setembro de 2026, o insumo entra no mercado cosmético como ativo e excipiente de origem nacional e rastreável. Foto: UFPE/Reprodução
A NatuCashew® em pó: resultado do processo de purificação da resina do cajueiro desenvolvido pela GumLife. Com aprovação da Anvisa em 25 de setembro de 2026, o insumo entra no mercado cosmético como ativo e excipiente de origem nacional e rastreável. Foto: UFPE/Reprodução

A resina do cajueiro, que escorre naturalmente do caule da árvore e não tinha uso comercial para as famílias cooperativadas do Nordeste, acaba de entrar na indústria cosmética com aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A GumLife, uma startup criada em 2020 por seis pesquisadores do Departamento de Farmácia da Universidade Federal de Pernambuco, levou seis anos para transformar esse subproduto em matéria-prima certificada: da pré-incubação no Parque Tecnológico da UFPE, no Recife, ao registro internacional de ingrediente (INCI) obtido em 7 de abril de 2026, até a aprovação da Anvisa no dia 25 de setembro.

O caminho aberto pela NatuCashew, nome comercial da goma do cajueiro, conecta o bioma da Caatinga ao mercado global de hidrocoloides, avaliado em US$ 12,77 bilhões em 2025 e projetado para US$ 23,09 bilhões até 2034, com crescimento anual de 6,80%, segundo a Market Research Future. Para as cooperativas de agricultores familiares de Apodi, no interior do Rio Grande do Norte, que já fornecem 100 quilogramas de resina por mês à GumLife, é uma renda extra para o ano inteiro. O “suor do cajueiro” pode valer quase 10 vezes mais do que a castanha bruta ou o pendúculo.

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“A gente vislumbra a participação da GumLife no mercado de insumos farmacêuticos para o Brasil. Hoje o Brasil importa muito insumo e, existindo um produto nacional de qualidade, com boa procedência, a tendência é que os laboratórios queiram comprar”, disse Joandra Maísa Leite, CEO da GumLife Brasil. O Brasil importa US$ 82,6 milhões por ano em gomas naturais, de acordo com dados do Comex Stat, mercado que a NatuCashew passa a disputar como insumo de origem nacional.

Resina do cajueiro em dissolução durante o processo de purificação desenvolvido pela GumLife no Parque Tecnológico da UFPE. A etapa separa impurezas e define o grau de qualidade da matéria-prima antes da secagem e obtenção da goma em pó. Foto: UFPE/Reprodução
Resina do cajueiro em dissolução durante o processo de purificação desenvolvido pela GumLife no Parque Tecnológico da UFPE. A etapa separa impurezas e define o grau de qualidade da matéria-prima antes da secagem e obtenção da goma em pó. Foto: UFPE/Reprodução

Com a linha BioCaju, a GumLife desenvolveu gel-creme multifuncional facial e sérum facial, ambos cruelty free, veganos e livres de parabenos, petrolatos e corantes. As duas formulações usam a NatuCashew em dupla função: como ativo, pelo efeito anti-inflamatório, dermocalmante, cicatrizante e estimulante da síntese de colágeno; e como excipiente, substituindo insumos importados na estrutura da fórmula. “Além de ser uma matéria-prima, ele vai trazer propriedades de ativo para uma formulação cosmética”, disse a CEO. A linha foi desenvolvida em paralelo ao processo de certificação regulatória e posiciona a startup no segmento de dermocosméticos com origem rastreável na biodiversidade da Caatinga.

A aprovação regulatória da Anvisa para uso cosmético transforma em negócio um material que antes ficava sem destino. Os cajueiros ocupam quase 500 mil hectares no país, segundo o Ministério da Agricultura, com 90% da área concentrada no Nordeste, e 426 mil hectares de cajueiros plantados na região sustentam um potencial estimado de 29.820 toneladas por ano de goma, segundo o cálculo da empresa.

Fragmentos de resina extraída do cajueiro antes do processamento. O material é coletado por agricultores familiares de cooperativas de Apodi, no Rio Grande do Norte, e enviado à GumLife para purificação no Parque Tecnológico da UFPE, no Recife. Foto: UFPE/Reprodução
Fragmentos de resina extraída do cajueiro antes do processamento. O material é coletado por agricultores familiares de cooperativas de Apodi, no Rio Grande do Norte, e enviado à GumLife para purificação no Parque Tecnológico da UFPE, no Recife. Foto: UFPE/Reprodução

UFPE, editais e seis anos de pesquisa

A GumLife é formada por cinco pesquisadoras e um pesquisador, doutores em Farmácia, Ciências Biológicas e Inovação Terapêutica, todos vinculados à UFPE e ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (iCeis): Dra. Joandra Maísa Leite (CEO), Dra. Isabela Araújo (CTO), Dra. Carla Oliveira (Conselho de Administração), Dra. Lariza Alves (Diretora de Inovação), Dr. José Lamartine (Consultor) e Dra. Mônica Felts (Consultora).

A ideia nasceu em 2020 a partir de pesquisas que identificaram nas propriedades da goma do cajueiro potencial para substituir insumos importados na indústria. “Conseguimos observar que a goma do cajueiro tem bastante propriedades e que poderíamos transformar isso em um produto para o mercado. O Brasil importa esses produtos para produção de cosméticos. E vimos esse nicho no mercado e decidimos criar uma startup”, disse Joandra Maísa.

A trajetória percorreu iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado antes de chegar ao produto. A empresa foi formalizada em 30 de setembro de 2022 e acumula 16 artigos publicados, 2 marcas registradas e 1 patente licenciada. O processo de purificação foi desenvolvido com cerca de R$ 250 mil captados em editais públicos: edital Centelha da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), Inova Mulher da Sudene, Compet Mulheres da Facepe, Empreendedoras Tech da Escola Nacional de Administração Pública (ENAP) e Fast Motion do Sebrae PE, entre outros.

Anvisa e INCI: dois registros em menos de seis meses

O envio à Anvisa ocorreu em 12 de agosto de 2026 e a aprovação veio 44 dias depois, em 25 de setembro. Antes disso, em outubro de 2025, a empresa enviou a documentação para o registro internacional INCI, obtido em 7 de abril de 2026, nomenclatura que padroniza ingredientes cosméticos no mercado global e abre caminho para exportação.

A NatuCashew funciona como ativo, espessante, estabilizante e excipiente para as indústrias cosmética, alimentícia e farmacêutica. . “Comprovamos que ele tem efeito anti-inflamatório, dermocalmante, cicatrizante e ele faz com que ocorra a síntese de colágeno para regeneração da pele. Então, além de ser uma matéria-prima, ele vai trazer propriedades de ativo para uma formulação cosmética”, disse a CEO.

Os dois produtos da linha BioCaju, da GumLife: o Sérum Multifuncional Facial e o Gel-creme Multifuncional Facial, ambos de 30 mL. Cruelty free, veganos e livres de parabenos, petrolatos e corantes, têm a NatuCashew® como ativo e excipiente na formulação. Foto: Divulgação
Os dois produtos da linha BioCaju, da GumLife: o Sérum Multifuncional Facial e o Gel-creme Multifuncional Facial, ambos de 30 mL. Cruelty free, veganos e livres de parabenos, petrolatos e corantes, têm a NatuCashew® como ativo e excipiente na formulação. Foto: Divulgação

Nos testes, a goma também apresentou potencial prebiótico, com função de substrato para bactérias benéficas do intestino, abrindo caminho para aplicação no mercado de nutracêuticos, alimentos funcionais consumidos por via oral com benefícios à saúde. A tecnologia chegou ao nível TRL 7, validada para produção e em fase de escalonamento, com rendimento de 50% a 60% de goma a partir da resina bruta. O processo compreende trituração da resina seguida de purificação até a obtenção da goma em pó.

O diferencial em relação à goma arábica, principal concorrente no segmento de excipientes, está nessa dupla função: “A goma arábica ela geralmente é importada no Brasil”, acrescentou Joandra Maísa, posicionando a NatuCashew como alternativa nacional com propriedades ampliadas. Para fabricantes que adotarem a matéria-prima, o pitch da GumLife projeta redução de custos industriais entre 5% e 15%.

O mercado brasileiro de cosméticos reúne entre 3.400 e 3.500 empresas, das quais cerca de 350 estão no Nordeste, segundo o Estadão. Na indústria alimentícia, são mais de 38.000 empresas no Brasil, com 7.000 a 9.000 na região, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA). Entre os consumidores, 60% declaram preferência por produtos sustentáveis, e o segmento registra crescimento de 25%, segundo dados do pitch.

Cooperativas e renda na entressafra

A matéria-prima da NatuCashew vem de cooperativas de agricultura familiar de Apodi, no interior do Rio Grande do Norte. A GumLife estruturou a cadeia do zero: foi até as comunidades, ensinou a técnica de coleta e organizou o envio via transportadora. Para os agricultores, a resina representa uma fonte de renda que não existia antes: “Aquele agricultor que só ganharia com o caju e a castanha, durante aquele período da safra, agora ele pode ter uma renda complementar no período da entressafra também”, acrescentou a CEO.

A GumLife conquistou o Prêmio Sebrae Startup Top 1000 em 2025, o Prêmio Mulheres Inovadoras em 2024 e, em 2023, o 2º lugar na Batalha de Startups e o título de empresa destaque em tecnologia, com 1º lugar nas fases 1 e 2 e no Game Final. Em 2026, a startup integra o programa Inova Caatinga do Sebrae e o Compet Mulheres da Facepe. A empresa está associada ao Parque Tecnológico da UFPE desde sua fundação e passou pelo programa Catalisa ICT em 2025.

Bioma como mercado: Caatinga na agenda de bioeconomia

A aprovação da NatuCashew ocorre no mesmo período em que a Sudene concluiu o projeto Rede Impacta Caatinga, desenvolvido em parceria com a UFPE e a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), com investimento de R$ 415,3 mil. O projeto estudou maracujá da Caatinga, licuri, umbu, acerola, pitanga e peptídeos da peçonha do escorpião Tityus stigmurus, que apresentaram atividade antimicrobiana e antibiofilme, inclusive contra cepas multirresistentes.

Entre os resultados estão protótipos de creme dental, gel dental e enxaguante bucal à base de óleo de licuri, sabonete esfoliante, farinha nutracêutica de resíduos agroindustriais e formulações farmacêuticas, além de estudos para protetor solar e monografias de espécies para a RENISUS (Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS).

Os protótipos odontológicos mais próximos do mercado estão associados à Opará (Observatório das Políticas Afirmativas Raciais) e à Coopes (Cooperativa de Trabalho em Serviço de Saúde), com cooperativas e organizações produtivas dos estados da Bahia e de Pernambuco.

“Em vez de simplesmente vender uma fruta, uma semente ou um óleo como matéria-prima, busca-se desenvolver biodiversidade, pesquisa, tecnologia, produto, mercado e renda. Isso significa agregar valor à biodiversidade dentro das próprias cadeias produtivas, criando novas possibilidades econômicas para agricultores familiares e organizações locais”, disse Frederico Cavalcanti, economista da Sudene.

O Centro de Bionegócios da Caatinga, instalado no Parque.TeC, em Recife Antigo, integra esse ecossistema com R$ 14,9 milhões da Finep como estrutura de apoio ao desenvolvimento e à escala de produtos derivados da biodiversidade regional.

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