Nordeste acompanha expansão das proteínas, com Ceará, Pernambuco, Paraíba e Bahia entre os mercados em crescimento
Vanessa Siqueira / FONTE: ME
De Alagoas
vanessa.siqueira@movimentoeconomico.com.br

De cervejas aos tradicionais suplementos alimentares, a proteína tem ganhado cada vez mais protagonismo entre produtos brasileiros, puxado pela busca por uma alimentação mais saudável ou uso de medicamentos emagrecedores. Enquanto os rótulos destacam o percentual de proteína, produtos como o whey protein enfrentam forte valorização da matéria-prima e a indústria busca alternativas para alimentar um mercado cada vez mais faminto. O Nordeste tem ganhado cada vez mais espaço no consumo.
Produzido a partir do soro do leite, o Whey protein está entre os produtos que mais sentem a pressão de custos no mercado de wellness. O preço do concentrado de whey protein 80%, utilizado como ingrediente pela indústria, chegou a mais de US$ 13 por libra nos Estados Unidos, quase três vezes o valor registrado um ano antes, segundo dados da consultoria Vesper.
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No Brasil, a pressão também chegou à indústria. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Suplementos Nutricionais (Abenutri), o país concentra cerca de 60% do consumo de whey protein da América do Sul e o mercado cresceu, em média, 8% ao ano entre 2020 e 2025. Em um ano, o preço da tonelada do whey concentrado aumentou até 120% no país. A entidade avalia que a oferta deverá permanecer restrita ao longo de 2026, enquanto novas capacidades produtivas são esperadas a partir de 2027.
Do lado das marcas que produzem suplementos, a busca por hábitos mais saudáveis e o crescente uso de terapias emagrecedoras, como as canetas análogas ao GLP-1, também tem impacto nessa demanda cada vez maior por alimentos de maior valor proteico.
O vice-presidente, Vendas e Marketing da Integralmedica, Fernando Moura, conversou com o Movimento Econômico e destacou que o mercado hoje é mais amplo do que aquele visto anteriormente e restrito apenas aos frequentadores de academia. A empresa vem acompanhando de perto essa mudança no mercado e vem realizando gestão de custos, cadeia de fornecimento e ampliando o portfólio, além de buscar inovações e diferentes possibilidades para atender esta crescente demanda por proteínas.
“Enxergamos com otimismo esse cenário, pois para nós esse movimento representa uma oportunidade de ampliar o mercado e desenvolver ainda mais soluções que atendam a diferentes necessidades e momentos de consumo”, disse.
Proteína sai da academia e entra na rotina
Se antes o whey protein era um produto associado diretamente aos marombeiros de plantão, hoje a procura tem se tornado cada vez mais ampla, acompanhando uma mudança observada em todo o mercado de alimentos.
Barras proteicas, bebidas prontas, sachês individuais e alimentos enriquecidos com proteínas passaram a dividir espaço com os tradicionais potes de whey. Para as empresas, a diversificação acompanha um consumidor que procura aumentar a ingestão proteica, mas nem sempre está ligado ao universo de musculação ou ao objetivo de ganho de massa muscular.

Segundo Moura, esse novo comportamento também tem impacto sobre o desenvolvimento de produtos e sobre a gestão da cadeia de fornecimento das empresas.
“A inovação está no DNA da Integralmedica. Com a nossa estrutura dedicada à Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), estamos atentos a desenvolver constantemente produtos que combinem alta qualidade nutricional, sabor e praticidade ao dia a dia”, disse.
“Os lançamentos mais recentes mostram justamente essa estratégia de ampliar as possibilidades de consumo como a chegada do Whey 100% em sachê de 30 g, com 20 gramas de proteína, oferecendo a praticidade no transporte além de facilitar a experimentação de diferentes sabores; além do Beef Protein, uma alternativa não láctea que oferece 30 g de proteína por porção. Também ampliamos as possibilidades de consumo de creatina, com a versão saborizada em sticks de dose única”, completou Fernando Moura.

Canetas emagrecedoras ampliam procura por alimentos proteicos
Outro fator que passou a influenciar esse mercado é o crescimento do uso de medicamentos análogos ao GLP-1 utilizados em tratamentos de diabetes e obesidade.
Um levantamento da NielsenIQ mostra que, entre os brasileiros entrevistados que utilizam medicamentos desse tipo, 84,4% afirmaram ter aumentado o consumo de proteínas animais após o início do tratamento. Ao mesmo tempo, 76,9% disseram ter reduzido ou eliminado o consumo de chocolates e doces e 73,4% diminuíram snacks e biscoitos.
A expansão do consumo dos medicamentos também aparece nos dados de vendas. O número de pedidos online de produtos associados ao GLP-1 cresceu 149,3% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo levantamento da Serasa Experian.
Foram 1,36 milhão de pedidos entre janeiro e junho deste ano, ante 547,2 mil no primeiro semestre de 2025. As compras movimentaram R$ 2,35 bilhões no período. O Nordeste aparece entre as regiões que puxaram a expansão das solicitações.
Para a Integralmedica, esse movimento passou a representar mais um vetor de demanda. Moura destaca que o crescente uso de terapias emagrecedoras também tem impacto na procura por alimentos de maior valor proteico.
Nordeste ganha espaço no mercado de suplementos
A expansão do consumo também tem avançado no Nordeste. Segundo a Integralmedica, Ceará, Pernambuco, Paraíba e Bahia estão entre os mercados da região onde a empresa observa crescimento da suplementação.
A companhia relaciona o avanço ao aumento do número de pessoas que praticam atividades físicas e à procura por produtos voltados a uma rotina considerada mais saudável.
Na região, a barra Protein Crisp aparece como o produto de maior intenção de compra entre os consumidores da marca, seguida por creatina e pelo whey protein concentrado 100%.
“O Brasil como um todo é um mercado estratégico para a Integralmedica e, justamente por sua dimensão e diversidade, apresenta comportamentos de consumo bastante distintos entre as regiões. Observamos um movimento importante de expansão da suplementação no Nordeste”, afirmou Moura.
A ampliação desse mercado acontece em um momento em que a indústria tenta equilibrar uma demanda crescente por produtos de maior valor proteico com o aumento do custo de uma de suas matérias-primas mais tradicionais. Nesse cenário, novas fontes, formatos e categorias começam a disputar espaço numa corrida pela proteína que já ultrapassou os limites das academias.

Carne, ervilha e amêndoa entram na corrida pela proteína
Com a demanda crescente e o aumento do custo do whey, outras fontes proteicas começam a ganhar espaço no desenvolvimento de produtos.
A própria Abenutri avalia que a restrição da oferta de whey pode estimular empresas brasileiras a buscar proteínas derivadas de carne, vegetais, leveduras e até produtos obtidos por processos de fermentação.
A Integralmedica lançou recentemente o Beef Protein, produto feito com proteína derivada da carne bovina e que oferece 30 gramas de proteína por porção. Diferentemente do whey, que tem origem no leite, o novo produto utiliza outra matéria-prima e amplia as alternativas disponíveis para consumidores que procuram diversificar as fontes de proteína.
Segundo Moura, o produto também atende pessoas que apresentam intolerância à lactose ou dificuldades relacionadas ao consumo de proteínas lácteas.
“A chegada do Beef Protein ao mercado faz parte do movimento da Integralmedica de acompanhar a transformação do mercado de nutrição esportiva, ampliando possibilidades para diferentes perfis de consumidores”, afirmou.
O movimento de diversificação também alcança a indústria de bebidas. A Almond Breeze, marca licenciada no Brasil pelo Grupo Piracanjuba, lançou em agosto sua primeira bebida vegetal proteica no país. O produto combina amêndoas e proteína de ervilha e entrega 15 gramas de proteína em uma embalagem de 250 ml.
Disponível nos sabores caramelo salgado e manga com maracujá, a bebida é sem lactose e integra uma estratégia da marca de ampliar a atuação no segmento de produtos funcionais.
Segundo Ricardo Ebel, Country Manager para América Central e América do Sul da Blue Diamond Growers, o lançamento acompanha consumidores que buscam “desempenho, bem-estar e novas formas de nutrição”.
A busca por alternativas ao whey também chegou a outras cadeias. Empresas do setor frigorífico passaram a ampliar investimentos em colágeno como ingrediente proteico. A JBS, por exemplo, criou a Genu-in em 2022 dentro de um plano de investimentos de R$ 400 milhões e já prepara expansão da capacidade de produção.

Proteína também cresce no prato
A maior presença das proteínas não aparece somente entre suplementos e produtos funcionais. As projeções para o consumo brasileiro de carnes e ovos também apontam crescimento em 2026.
Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o consumo per capita das três principais categorias acompanhadas pela entidade deverá encerrar o ano acima dos níveis registrados em 2025.
O consumo de carne de frango poderá chegar a 48,1 quilos por habitante em 2026, ante 46,7 quilos no ano passado. Para a carne suína, a projeção é atingir 20 quilos por habitante, contra 19,1 quilos em 2025.
Nos ovos, o consumo deverá passar de 288 para 301 unidades por habitante neste ano, uma expansão de até 4,5%. A ABPA também prevê crescimento da disponibilidade de proteínas no mercado interno, acompanhando o aumento da produção brasileira.
As projeções iniciais para 2027 indicam continuidade do movimento. O consumo poderá alcançar 49,4 quilos de carne de frango, 20,4 quilos de carne suína e 312 ovos por habitante.
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