FONTE: ALGOMAIS

Sociedade Brasileira de Pediatria estabelece recomendações e reforça que rotinas de skincare para crianças e adolescentes podem causar danos à pele, alterações hormonais e impactos na saúde mental
Há poucos anos, a cena de uma criança diante do espelho usando maquiagem costumava estar associada a brincadeiras ocasionais. Hoje, porém, a realidade é diferente. Influenciadoras mirins exibem nas redes sociais rotinas completas de skincare, compartilham resenhas de cosméticos e apresentam produtos que prometem hidratação, rejuvenescimento e até prevenção de rugas para um público que sequer chegou à adolescência.

O fenômeno ganhou proporções tão significativas que levou a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) a publicar, em julho de 2025, um documento científico com orientações específicas sobre o uso de cosméticos, maquiagem, procedimentos estéticos e produtos de cuidados pessoais por crianças e adolescentes. O alerta é direto: o uso precoce desses produtos pode trazer riscos dermatológicos, hormonais e emocionais.
A preocupação acompanha uma tendência observada tanto no Brasil quanto em outros países. Segundo a própria SBP, estudos nacionais indicam que muitas crianças brasileiras começam a utilizar maquiagem, especialmente batom e sombra, por volta dos quatro anos de idade. O contato precoce com cosméticos ocorre em uma fase em que a pele ainda está em desenvolvimento e é mais vulnerável a irritações, alergias e sensibilizações futuras.

Ao mesmo tempo, redes sociais como TikTok e Instagram transformaram rotinas de beleza em conteúdo de entretenimento e consumo. Estudos recentes mostram que vídeos de skincare produzidos por crianças e adolescentes frequentemente promovem produtos caros, com ingredientes ativos inadequados para peles jovens e que oferecem pouco ou nenhum benefício para essa faixa etária.
A chamada “Geração Alpha”, formada por crianças nascidas a partir de 2010, cresceu em um ambiente digital em que aparência, curtidas e consumo estão cada vez mais conectados. Nesse cenário, o skincare deixa de ser apenas um cuidado pessoal e passa a funcionar como símbolo de pertencimento social.
Quando o cuidado vira risco
Entre as principais preocupações dos dermatologistas está a popularização de produtos originalmente desenvolvidos para adultos, especialmente aqueles voltados à prevenção do envelhecimento. Ingredientes como retinoides, ácidos esfoliantes e antioxidantes passaram a fazer parte das rotinas exibidas por influenciadores digitais, mesmo quando não existe qualquer indicação médica para seu uso por crianças ou adolescentes.
Segundo a dermatologista Aleksana Viana, professora de pós-graduação da Afya Educação Médica Recife, a pele jovem possui características completamente diferentes da pele adulta.
“A pele das crianças e dos adolescentes possui características muito peculiares. Ela é mais fina, sensível e ainda não tem a barreira de proteção totalmente consolidada. Quando um jovem é influenciado a usar produtos anti-idade, que contêm concentrações elevadas de retinoides e ácidos formulados para peles maduras, o resultado não é a prevenção de rugas, mas, sim, queimaduras químicas, fotossensibilização, manchas graves e dermatites de contato crônicas”.
Os riscos não se limitam ao desconforto temporário. A exposição repetida a substâncias inadequadas pode comprometer a integridade da barreira cutânea, aumentar a sensibilidade da pele e favorecer quadros inflamatórios que podem persistir por anos. Além disso, muitos desses produtos exigem cuidados rigorosos com proteção solar. Quando utilizados sem acompanhamento profissional, aumentam significativamente o risco de manchas e lesões provocadas pela exposição ao sol.
Além da pele: os riscos invisíveis dos cosméticos
Outro ponto que preocupa os especialistas é a presença de substâncias químicas potencialmente prejudiciais em diversos cosméticos.
Pesquisadores da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, identificaram que a maioria das crianças avaliadas utilizava maquiagens e produtos corporais que podem conter substâncias associadas a efeitos tóxicos, incluindo metais pesados, formaldeído, PFAS e outros compostos potencialmente nocivos. O estudo apontou, ainda, que o uso desses produtos é frequente entre crianças menores de 12 anos.
Entre os compostos que despertam atenção estão os chamados disruptores endócrinos, substâncias capazes de interferir no funcionamento hormonal do organismo.
“A exposição precoce a maquiagens e cosméticos vai muito além do risco de alergias locais. A formulação de muitos desses produtos contém conservantes, como bisfenol, triclosan e parabenos, que atuam como disruptores endócrinos. Isso significa que eles podem desregular o sistema hormonal em uma fase crítica do desenvolvimento, trazendo implicações metabólicas e até toxicidade neurológica associada ao uso contínuo e excessivo”, explica a médica Aleksana Viana.
Pesquisas recentes também apontam associação entre o uso frequente de determinados produtos de cuidados pessoais e níveis mais elevados de compostos químicos com potencial de interferência hormonal em crianças.
Além da pele: a estética precoce e a saúde mental
Os impactos dessa tendência não são apenas físicos. Especialistas observam que a busca por uma aparência considerada perfeita tem chegado cada vez mais cedo. Crianças passam a se preocupar com poros, manchas, oleosidade e até envelhecimento antes mesmo de compreenderem as transformações naturais do próprio corpo.
A exposição contínua a conteúdos que associam beleza à aceitação social pode gerar distorções na autoimagem e reforçar a ideia de que o valor pessoal depende da aparência. Nesse contexto, a felicidade deixa de estar relacionada a experiências, vínculos e desenvolvimento saudável e passa a ser condicionada ao consumo de produtos divulgados nas redes sociais.
Pesquisadores que estudam o impacto das redes sociais sobre crianças e adolescentes alertam que muitos desses conteúdos reforçam padrões estéticos irreais e incentivam uma relação precoce e excessiva com a aparência física.
O que diz a Sociedade Brasileira de Pediatria
Diante do crescimento desse mercado voltado ao público infantojuvenil, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou recomendações específicas para orientar famílias e profissionais de saúde.
Entre as principais orientações estão:
Maquiagem
- Quanto mais tarde iniciar, melhor;
- Na adolescência, o uso deve ser eventual;
- Dar preferência a produtos hipoalergênicos destinados a peles sensíveis.
Coloração e química capilar
- Nenhum procedimento químico antes dos 15 anos;
- Colorações apenas a partir dos 12 anos, utilizando produtos temporários, sem amônia, chumbo ou água oxigenada.
Unhas de gel
- Não recomendadas para menores de 16 anos;
- Contraindicadas para adolescentes imunossuprimidos ou com diabetes.
Desodorantes
- Desodorantes simples podem ser utilizados a partir dos 8 anos;
- Antitranspirantes apenas após os 12 anos.
Piercings e tatuagens
- Preferencialmente apenas após os 18 anos;
- Quando realizados antes dessa idade, exigem autorização dos responsáveis e avaliação adequada das condições de saúde e do calendário vacinal.
O skincare que realmente importa
Enquanto vídeos nas redes sociais apresentam rotinas com dez ou mais produtos, dermatologistas reforçam que a maioria das crianças e adolescentes não precisa de nada além dos cuidados básicos.
“Na dermatologia pediátrica e hebiátrica, a regra é clara: menos é mais. O skincare de um adolescente, para ser saudável, precisa apenas de três passos básicos: limpeza com sabonete neutro para controle da oleosidade, hidratação com um produto leve e de base aquosa e uso de protetor solar adequado para a idade, de preferência oil-free. Qualquer intervenção além disso não é cuidado, mas excesso motivado por uma pressão estética virtual irrealista”, afirma Aleksana Viana.
Em um cenário em que a indústria da beleza conquista consumidores cada vez mais jovens, especialistas defendem que o verdadeiro cuidado com a pele infantil passa menos pelas prateleiras e mais pela informação. Afinal, proteger a saúde física e emocional das crianças talvez seja o principal filtro que pais e responsáveis precisem aplicar diante das tendências que surgem diariamente nas redes sociais.
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